quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

21g

dizem que a alma pesa tão pouco. a minha, decerto, é imponderável. somente terei noção, a bem da verdade, quando eu desencarnar. mas não estarei aqui para me pesar. portanto, por que carregar tanto peso na vida? sei que cada um desses gramas parece-me ter saído pelos olhos hoje, ao finalmente (mais uma vez) reconhecer que quem faz meu caminho sou eu.

todos os dias pensei nela. alguns psicólogos teriam diagnóstico clínico para tal comportamento, a despeito de como os mais românticos taxariam. sei apenas que o que senti pesou. cada vez que a tive em mente a cabeça parecia encorpar-se e ganhar massa. tão pesada que já não se sustentava sobre esse corpo frágil. hoje reconheço o quanto peguei pesado comigo mesmo.

hoje sinto que começo a me libertar desse peso que carreguei desnecessariamente. pouco a pouco aceito a ideia de que vivi um mundo à parte em minha cabeça, esquecendo-me do que mais importa. ainda aprenderei a ser eu mesmo.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

la trama y el desenlace

um marca páginas devem separar a parte transcorrida do restante de uma história. a utilidade destes objetos é justamente suspender de forma temporária o andamento de uma leitura, seja por sono, interrupção ou mesmo tédio. a bem da verdade, se a história fica enfadonha, você simplesmente a abandona, descarta como se nada mais representasse. quantos não foram os livros que eu não deixei para trás? quantas não foram as histórias às quais eu soneguei o direito de encontrarem seu desfecho? minhas prateleiras contam cada uma delas. meus diários também.

desta vez, um marca página põe ponto final numa trama tão breve quanto as citações que costumam figurar neste adereço livresco. na mais sutil das notas de rodapé, entretanto, leio um trecho dizer quase que sussurrando que este ponto final poderia muito bem ser um ponto e vírgula. um hiato tão espaçado quanto paciente. infelizmente não caibo em nenhum dos dois. a mim, não me parece suficiente. eu me basto.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

conhece-te a ti mesmo

escrever para esquecer, para abandonar os pensamentos pesos pesados que ocupam cada sinapse e consomem a maior parte da energia de que disponho diariamente. hoje me senti exaurido, deprimido e angustiado depois de uma tarde inteira refletindo se deveria ou não mandar uma última mensagem a ela. aconselhado pela colega de trabalho, mandei a mensagem "indiferente"a fim de causar um desconforto do outro lado. minha intenção, no entanto, era apenas reaver um objeto que para muitos é insignificante, mas que carrega dois anos de lembranças excelentes de uma viagem ao lado dos meus pais. minha mente tem mistérios que jamais decifrarei.
por fim, o tiro saiu pela culatra. o desconforto quem encarou fui eu, o sentimento ruim veio para mim. afinal, fiz algo que supostamente pertence ao script das relações entre as pessoas, mas que, para mim, não faz o menor sentido, já que é um gesto vazio de sentido e verdade. obviamente eu iria sofrer ao final.
fui ignorado, como merecido, e agora fico na incerteza de ter de volta o que queria.

passado o expediente, abandonei o trabalho com os olhos marejados e o pulmão quente e ácido, um velho sentimento de dor que antecede as lágrimas. questionava-me se, de fato, havia algum sentido nas minhas atitudes ou nas escolhas que venho fazendo. ao que me deparo, no mezanino do prédio uma criança brinca inconsequentemente frente a um parapeito distante pelo menos 4 metros do chão. no menor gesto sinalizando a iminência da queda eu senti todos os músculos do meu corpo se prepararem para disparar na direção do local onde aquela criança poderia cair. por fim, ela não despencou. mas soltou em minhas mãos uma lição importante para as minhas elucubrações: talvez eu não despreze a vida tanto assim. num gesto instintivo eu zelei pela vida de um menino que eu nem conheço. talvez eu tenha permitido, por tempo demais, que minha mente opere mecanismos de auto-flagelação, auto-depreciação e, assim, despreze, na verdade, a minha própria vida. ainda sou um ser humano normal, mas perdi o controle dos meus pensamentos. ocupo-me com o trabalho e com o que acredito serem minhas amizades, mas ainda me sinto vazio. é um sentimento desgraçado de ser sentido às vésperas do natal.

decidi-me por passar o reveillón no templo budista pela terceira vez em 4 anos. desta, não vou convidar qualquer amigo, apesar de sentir que vou acabar encontrando alguém na cerimônia. preciso meditar, concentrar-me em mim mesmo. ensimesmar-me. não de forma introspectiva e auto-destrutiva, senão de forma a conhecer-me na essência e valorizar isto que eu tenho antes de abandonar este plano. a vida é muito curta e tudo passa muito rapidamente. live and let die.

preciso aprender a gostar de mim antes de tudo. antes de qualquer outra pessoa ou nova paixão. eu preciso aprender a gostar de mim.

domingo, 17 de dezembro de 2017

L,

todos os meus amigos – ou pelo menos a maioria daqueles a quem contei sobre você – me deram o mesmo conselho. Mas temo que vou desconsiderar e te escrevo essa carta. não espero que ela tenha qualquer influência sobre você, mas acredito que ela surte efeito ainda maior dentro de mim. faço isso por mim única e exclusivamente, ainda que ela esteja endereçada a você.

quero tirar um peso das minhas costas semelhante àquele carregado por atlas. engraçado é que em ambas histórias há um mínimo de paralelo com a realidade dos fatos. esse peso quem colocou nas minhas costas fui eu. é o peso de todo o afeto retido, guardado e negado que eu guardei para você sem saber que, no fim das contas, você não o queria. e como todo fardo, tornou-se mais pesado conforme o tempo e o sentido de tudo passou. hoje preciso me livrar dele e é por isso que escrevo.

como em todas as outras vezes em que me aventurei com paixões inesperadas, me joguei de cabeça sem saber o que viria depois dali. mas o que acabei vendo foi uma imagem refletida e distorcida de mim mesmo, as minhas expectativas que reluziam sobre um espelho d'água tão profundo quanto aquilo que construímos em tão pouco tempo. porém não se engane. esse mergulho foi suficiente para eu me afogar nas projeções que criei do que teria com você, do que achei que tínhamos. mais uma vez falhei comigo mesmo na promessa de ser mais comedido, seguro e calmo. mais uma vez me deixei levar por uma imagem irreal de um relacionamento ou seja lá o que havia entre nós.

emprego a primeira pessoa do plural por incerteza se ainda terei de volta aquele marca páginas que lhe disse me ser bastante especial. penso em te pedir que deixe na portaria do seu novo prédio, o qual tenho certeza que jamais conhecerei. mas nem sei se você já se mudou, se vai se mudar ou seja lá o que planeja para os próximos meses. engraçado também empregar o plural para o tempo, tão singular e simples para o um mês de contato que tive com você. (já começo a me despedir também da palavra "nós"). quanto ao livro, pode ficar com ele. apesar de não tê-lo terminado, acredito que li o bastante para saber que thoreau há de te falar algo interessante. não tenho qualquer pretensão de ser marcante com um ato final, mas senti do fundo do meu coração – que tanto sente – que deveria dá-lo a você. afinal, estamos próximos do natal e não quero começar um novo ano com pendências e/ou situações mal resolvidas.

eu sei que essas palavras jamais chegarão aos seus olhos ou sequer terei a oportunidade de proferi-las aos seus ouvidos, mas espero que você saiba que, como todas as outras, eu te quis muito bem. quis te fazer bem e quis ser melhor para você. mas já passou da hora de eu ser melhor para mim, de querer o meu bem e querer me fazer bem. espero que estas palavras me encontrem em situação mais agradável no futuro . e aguardo pelo dia em que esse nó na garganta ou esse calor que eu sinto toda vez que me imaginei com você cessem assim como o que tive contigo: rápida e despretensiosamente.

adeus

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

verborragia intermitente

eu me sentei à mesa, diante de uma das mulheres mais bonitas que conheci. o encontro seguia em uma sequência de monólogos intercalados, porém nem um pouco monótonos. ambos alternávamos histórias sobre cada um de nós, eventualmente finalizando com um "eu estou com um pouco de sono, não me leve a mal se ficar meio quietinha" ou "falei demais sobre mim, né? não sou tão egóico, juro".
as intermitências ocorriam de uma forma leve e respeitosa, pouco semelhante com a experiência que ambos tiveram menos de 24 horas antes. e que experiência.
a escolha do local, o encontro já no dia seguinte, tudo ocorrera da forma menos arquitetada possível. e, talvez, essa espontaneidade me assustasse, fazendo-me olhar todo o transcorrer dos fatos com a maior desconfiança possível. apesar disso, não me senti pessimista ou sequer derrotista. por vezes erguia a cabeça e endireitava a coluna, sempre lembrando que mesmo em frente a uma mulher incrivelmente humilde, eu não poderia me curvar por desleixo ou abnegação. ela ainda não tinha a aura mística que toda mulher apaixonante tem e diante da qual eu me rebaixo instintivamente...
talvez isso seja um bom sinal. talvez eu esteja encarando esta mulher como ela é.
por inúmeras vezes consegui fazê-la de forma transparente e honesta. uma janela para a alma se abria e eu me sentia convidado a entrar. mas não posso fazê-lo senão pela porta principal. pouco a pouco verei estas janelas se abrirem e, quem sabe, teremos tempo para passar pela entrada a convite dela.
a ver

terça-feira, 15 de novembro de 2016

I ought to start walking on my own shoes

It's funny to have that on mind when I'm 27 and still living at my parents' house. I mean, if it wasn't this particular situation, the sentence that entitles this very post would make no sense, right? The point is that I think I finally achieved a state of mind – if it'll last I can't tell you in advance – that pushes me forward, puts me moving out of a condition of inertia inside my comfort zone.
I just got home from cinema. Some 20 minutes back I was almost finished watching Indignation, a movie based in a homonym Philip Roth's book (is this guy a best seller out there? I honestly have no idea).
At first, when I decided to watch it I thought it would portrait a youngster life surrounded by dilemmas in adult life. Woah, maybe I would have some identification with it, right? Precisely.
It was a pleasant experience, but the acting were poor, although the screenplay was good enough to get an A in a Creative Writing class. I just figured that out on the last scene.

But, back to my existencial elucubrations, I found it a pleasant experience once I had it minutes before leaving work in the middle of a national holiday. Perks of working with journalism.
I went there by myself, choose the movie alone and enjoyed a meal with no companion. And this is well tweet-fitting definition of my social life nowadays. I can't see any positive aspect on it, although I have been comfortable with that. And, again, it's no good to stay in the comfort zone. I need some ground shaking experience or, at least, an impulse to start acting differently in my life. I only realized that when I noticed I was driving a car that does not belon to me; at the moment I check the hours in a clock that doesn't covers only my wrists; and, finally, when I rushed out of the movie session with some comfy shows sized to some other feet but mine. So, yeah, I ought to star walking on my own shoes.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

dizem que os problemas daquela família se resumiam a testosterona, estrogênio e grana. tem um autor – não vou googlar o nome porque cansei de ser pedante – que já dizia, né, que tudo é sobre sexo exceto o próprio sexo, porque este se resume a poder.
a mãe e o pai há muito já não sabiam o que é sentir as bochechas queimarem na menor demonstração pública de afeto. um casal que dorme na mesma cama, mas mirando direções opostas não pode esperar que os filhos encontrem um norte sozinhos. e essa falta de expectativa corroía o interior dos herdeiros.
- bom dia.
- ... bom dia.
 e assim os dias começavam regados a café queimado, esquecido no fogão por alguns minutos a mais que o necessário. o filho desistira da doçura e passou a sorver o líquido como vinha do preparo. a esperança era tragar algo mais amargo do que já havia dentro de si. mas essa tarefa nunca seria completa.

- onde você pensa que vai? tá achando que é dono do seu próprio nariz?
- mais um motivo pra eu partir. não tenho nada e nada vai me prender aqui.

ora eram os hormônios que faltavam, ora o dinheiro. alguns ali pareciam, caprichosamente, combinar as duas precariedades e assim tentar fazer com que os outros convivas também ficassem. uma forma de impor a inércia em que vivia aos corpos que lhe cercam.

coragem nunca foi uma herança genética. pelo contrário. naquele lar, os familiares se uniam pela fragilidade, pelas vicissitudes que, muitas vezes, não desciam, mas pareciam se prender no meio da garganta e o asfixiado repetia como um mantra: tá tudo bem, não tem nada de errado.

e engolir aquilo era difícil. expelir, então, nem pensar. a solução econtrada era conviver com aquele objeto estranho encalacrado e fingir que era normal.