domingo, 26 de fevereiro de 2023

 o flávio é um ser humano ímpar. como alguns dos meus amigos, flávio ficou amigo também de toda minha família. ele sempre recebeu a todos com um sorriso simpático – quase tolo – que sempre o defendeu de críticas a sua índole. flávio não era puro. pelo menos não no sentido cristão. mas ele com certeza viveu com tamanha transparência, que nem mesmo o mais pretenso puro teria a ousadia de apontar máculas na reputação de flávio. a única marca visível eram as cicatrizes que carregou desde 2018.

seu coração grande exigiu muito de seu corpo, que foi sendo fragmentado de dentro para fora. não tinha como qualquer ameaça externa alcançar o coração de flávio. quiseram a vida, o destino e o imponderável que a maior de suas artérias começasse a se encher de fissuras. um episódio aterrorizador anunciava as dificuldades que ele viria a enfrentar com a primeira cicatriz exposta. cicatriz essa igual à que eu carrego no meu peito. 

apesar de as cicatrizes serem iguais, as razões eram diferentes. flávio conviveu por anos com uma dissecção de aorta que forçou sua aposentadoria aos 30 e poucos anos e impediu que flávio voltasse a frequentar academias com a intensidade comum a alguém de sua idade. a última cirurgia, realizada em 24 de fevereiro de 2023, dava esperanças a flávio e sua família. mas novamente a vida, o destino e o imponderável agiram e sacramentaram que aquela seria a última incisão sobre o corpo de flávio. o último bisturi que cortaria sua pele de forma inexorável e irreversível. 

flávio faleceu aos 37 anos, após 14 horas de cirurgia, deixando esposa, uma mãe (também viúva), uma filha e dois irmãos (também órfãos de pai). a vida tem mistérios que eu nem me atrevo a entender. cabe a mim aceitar a imponderabilidade, a imprevisibilidade e a incontrolabilidade desta dádiva que nos é dada sem consentimento e nos é tirada sem aviso prévio. 


cabe-me acreditar que cada lufada de ar, cada pão, cada noite bem dormida é um milagre em minha vida. e carrego no peito a cicatriz que vai me lembrar do meu irmão flávio, do seu sorriso bobo e de sua leveza. 

viva flavim.



quinta-feira, 20 de agosto de 2020

há consenso científico sobre o momento exato em que começa uma vida? seria quando um gameta se une a outro ou quando um feto desenvolve o sistema nervoso? talvez quando começa a apresentar os batimentos cardíacos? não sei, não sou cientista. tenho um reles diploma de curioso profissional e também interesses diversos.

astrólogos dizem que no momento em que uma pessoa nasce, a disposição dos planetas no cosmos – com referência ao local de nascimento – determina características aparentemente imutáveis na sua personalidade. mas e se essa pessoa "nasce" duas vezes em uma mesma vida? se seu coração para por um tempo e depois volta a bater, esta pessoa viveu um renascimento?

não tenho certezas quanto aos dilemas científicos e astrológicos, mas posso assegurar que minha vida não é a mesma há um ano. em 20 de agosto de 2019, meu coração não bateu por 54 minutos. 

acordei às 13h, depois de seis horas de cirurgia, com a sensação de estar com um toco no peito. sim, um toco. não um oco. parecia que eu tinha um pedaço de madeira, ferro ou algum outro material rígido colando meu esterno recém serrado. de fato, havia "grampos" para unir as partes que certamente causariam dores sobre-humanas no meu tórax que eu teria sentido se não fossem as doses de tramal e outros analgésicos e anti-inflamatórios. passada a peleja, voltemos à poesia.

eu senti, ao abrir os olhos, uma estranha sensação de voltar ao corpo, de retornar à terra após uma viagem extracorpórea em que eu podia ver de longe, os cirurgiões, os enfermeiros e enfermeiras e técnicos e técnicas de enfermagem que me operavam naquela manhã de inverno. como é sabido, o inverno em brasília é rigoroso pela baixa umidade e altas temperaturas. talvez um dos piores cenários para alguém se recuperar de uma cirurgia cardíaca. mas eu me recuperei.

um ano depois, 10 kg a mais graças à nova dieta, aos exercícios físicos e a uma quarentena que se prolonga ad eternum graças à inépcia dos governos em conter a pandemia, eu me sinto vivo. posso não estar forte como sonhava, otimista e crente no futuro como almejava, inspirador como aspirava, mas sinto-me vivo. e isso já é demais em um momento de tamanha fragilidade da vida. e também das relações interpessoais. ontem tivemos uma conversa franca motivada por outras situações familiares, mas que me fez ver os olhos marejados do meu pai pela terceira vez em 30 anos. um homem forte e grande (lato sensu) que pouco chorou na frente da sua família. não por impedimento de uma masculinidade frágil, mas, pelo contrário, pela serenidade e sensibilidade de um homem que é puro coração. que sorte, a minha.

vi também minha mãe viva. vi seus olhos cheios de vida, sua tez linda, seu sorriso retornando ao rosto. quem me conhece, sabe que em 25 de março de 2020 eu tive o pior momento da minha vida, quando achei que minha mãe perderia a dela. e hoje ela está viva, linda como sônia braga e forte e decidida como gabriela.

diante deles, vi uma criança de 12 anos que amadurece como eu jamais imaginaria. que cresce tanto em espírito e mentalidade quanto fisicamente num momento em que as paredes de casa se tornam pequenas para esse processo. mas é necessário que aqui ele fique, para viver bem os muitos anos que quero que sua vida tenha. um jovem lindo, honesto, sensível e carinhoso. uma criança de amor.

ao lado dele, uma mulher de 33 anos, minha irmã, com toda a firmeza e bruteza de um diamante que espera lapidar-se. o que ela vale para mim é inestimável, incalculável. mas assim como o diamante, é preciso brilhar para ter reconhecimento. ontem ela brilhou e abriu meus olhos. eu tenho muita sorte de tê-la ao lado.

em outra casa, mas dentro do mesmo peito, ainda cabem duas outras mulheres que prolongam na nossa linhagem a palavra de dina, o amor de dina. mãe e filha, minha irmã e sobrinha me lembram que a vida pode ser breve, mas não deixa de ser um milagre. é complexa a conjunção de fatores que fazem uma vida acontecer. é muita sorte ter todas elas comigo.

minha vida se molda com as mãos sensíveis e cuidadosas de todas as pessoas das minhas famílias, a de sangue e a de afeto. eu agradeço a cada uma delas pela vida que tenho. eu agradeço a Deus pelo milagre da existência. e também da reexistência.


segunda-feira, 29 de junho de 2020

o isolamento me deu a chance de voltar para dentro, pisar em um terreno que adiei por considerar a missão complexa ou demorada. pois agora que há bastante tempo e poucas rotas de fuga, precisei confrontá-la.

vivi, em 108 dias, momentos de ansiedade, incerteza e solitude intensas. experimentei mesmo que cercado por minha família e em constante contato (virtual) com boa parte das amizades mais valiosas. hoje, entendo que todos os sentimentos causados pela pandemia (o desconhecimento do que ainda vai acontecer, a falta de perspectiva, a paranoia e a obsessão com a limpeza e seus protocolos) não se comparam aos 15 minutos em que tive a cabeça de minha mãe inconsciente sobre meu colo no fim de março. eu tenho uma lembrança clara do que vivi, mas não sei precisar quanto tempo durou tudo. minha mãe sofreu um aneurisma cerebral em casa, três dias após completar 65 anos.

construir uma relação mais sadia e respeitosa com a minha família tem sido o saldo positivo deste isolamento. havia anos que os momentos que vivíamos já não me traziam tanta alegria. maioria soava-me como o cumprimento de um roteiro de socialização (aniversários, formaturas, trocas de emprego). mas, hoje, a simples divisão de uma tarefa doméstica traz significado e fortalece as recordações que guardarei para o futuro. seja ele qual for, se houver.

um dia, durante uma refeição, questionei minha mãe sobre as recordações que ela guardava da infãncia destituída de luxos que viveu em bairros de classe média baixa de goiânia. num esforço sensível, ela trouxe à tona os momentos de felicidade comedida intercalados com outros de disciplina e aprendizado em uma casa com nove pessoas.

tentei fazer o mesmo esforço para me lembrar da minha própria infância, vivida em um apartamento de 54 m² com meus pais e minhas duas irmãs. logo, com quatro pessoas a menos que na casa em que minha mãe cresceu. lamentei que as lembranças que eu destaquei também se restringiam à felicidade comedida e à disciplina. não surgiram recordações claras de momentos espontaneamente felizes ou cuja relevância era tão maior quanto menor fosse a pompa da ocasião. uma lástima. apesar disso, certamente vou me lembrar desta conversa com minha mãe, pois ela me diz muito sobre o que eu e ela tendemos a fixar na parede da memória.

após eu tomar em mãos uma olympus pen generosamente emprestada por um velho e querido amigo, cresceu a vontade de documentar um pouco do que vivemos nos três últimos meses. e disto, surgiu esta série de dípticos. com ela, quero criar as lembranças ao alexandre do porvir. para que a ele não faltem imagens de momentos de iluminação, de esclarecimento. cenas tão prosaicas quanto importantes de um momento jamais vivido por qualquer uma das gerações que vivem hoje debaixo do teto desta casa que eu adoro.

aab
29. jun '20

sábado, 20 de junho de 2020

100 dias de quarentena. 115 dias desde o primeiro caso de covid-19 no brasil. 50 mil mortos durante a pandemia. mais de 1.000.000 de casos até hoje.

comecei falando de números que assustam. mas depois de tanto tempo, os números perdem o impacto. como ficou claro hoje, no comentário do meu vizinho que se gabava comigo do novo jeep que ele comprou. "a vida não pode parar!", comentou. pois é. para 1 milhão de pessoas ela está parada dentro de um quarto residencial ou hospitalar ou no leito de uma UTI. isso sem contar o inestimável número de parentes enlutados que perderam 50 mil pessoas desde 26 de fevereiro.

durante esta pandemia, minha mãe sofreu um aneurisma cerebral, eu me recupero (ainda) de uma cirurgia cardíaca e minha família permanece saudável, apesar disso tudo. nossos privilégios e nossas seguranças nos permitem levar uma vida segura e razoavelmente cheia, mesmo durante o isolamento social. aposentados ocupados com tarefas domiciliares, trabalhadores cumprem suas 40 horas de trabalho semanal, que hoje não são mais tão bem definidas. isso não se compara à dor das famílias que perderam alguém.

eu não sei o que é estar angustiado por saber que um parente contraiu a doença que ainda não tem cura nem vacina. e eu tenho muitos parentes espalhados por todo o país. isso é mais que sorte, é privilégio. pois graças a Deus minha família tem segurança para permanecer saudável e segura. mas não apenas isso, tem conhecimento e empatia para saber que deve ficar em casa, permanecer distante para viver bastante.

quarta-feira, 18 de março de 2020

pandemia sem pandemônio

hoje é dia 18 de março de 2020 e eu me encontro no terceiro dia de isolamento por conta da pandemia do covid-19. pode parecer precipitado, mas sei que é necessário. moro com meus pais, e ambos têm mais de 60 anos de idade, além de terem particularidades que os colocam no grupo de risco comigo. eu sou operado, tenho uma prótese no lugar da válvula aórtica e ingiro medicamentos diariamente.

apesar disso tudo, notei – em 72 horas – que há outras formas de se construir a rotina. minha mãe sofreu episódios de vômito e alta de pressão sanguínea, o que acreditamos ser um quadro psicossomático, e precisamos levá-la ao pronto socorro em duas ou três ocasiões nas últimas três semanas. note-se que ela teve outros dois episódios sem encaminhamento ao hospital. centro médico este que me internou quando da minha cirurgia cardíaca em agosto de 2019. coisas da vida – ou da limitação da rede de atendimento do plano de saúde.

estamos eu, meu pai, minha irmã e meu sobrinho nos revezando nas tarefas que deveriam há muito ser dividas de forma equânime. no entanto, prova-se o quanto minha mãe, uma senhora de 64 anos, permaneceu sobrecarregada tanto por nossa conivência quanto pela obsessão dela por limpeza. esta, inclusive, serve muito bem no atual momento, em que nos preocupamos tanto com a assepsia das mãos, das superfícies em que tocamos as mãos  e do ar que respiramos.

estou escrevendo este relato, minha primeira nota sobre este período que deve ser longo, para desanuviar as ideias e ter um registro para o alexandre do futuro ler. quem sabe daqui 12 ou quiçá oito semanas, ele possa ler tudo isso e aprender algumas lições.

ficaremos bem.

aab

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

21g

dizem que a alma pesa tão pouco. a minha, decerto, é imponderável. somente terei noção, a bem da verdade, quando eu desencarnar. mas não estarei aqui para me pesar. portanto, por que carregar tanto peso na vida? sei que cada um desses gramas parece-me ter saído pelos olhos hoje, ao finalmente (mais uma vez) reconhecer que quem faz meu caminho sou eu.

todos os dias pensei nela. alguns psicólogos teriam diagnóstico clínico para tal comportamento, a despeito de como os mais românticos taxariam. sei apenas que o que senti pesou. cada vez que a tive em mente a cabeça parecia encorpar-se e ganhar massa. tão pesada que já não se sustentava sobre esse corpo frágil. hoje reconheço o quanto peguei pesado comigo mesmo.

hoje sinto que começo a me libertar desse peso que carreguei desnecessariamente. pouco a pouco aceito a ideia de que vivi um mundo à parte em minha cabeça, esquecendo-me do que mais importa. ainda aprenderei a ser eu mesmo.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

la trama y el desenlace

um marca páginas devem separar a parte transcorrida do restante de uma história. a utilidade destes objetos é justamente suspender de forma temporária o andamento de uma leitura, seja por sono, interrupção ou mesmo tédio. a bem da verdade, se a história fica enfadonha, você simplesmente a abandona, descarta como se nada mais representasse. quantos não foram os livros que eu não deixei para trás? quantas não foram as histórias às quais eu soneguei o direito de encontrarem seu desfecho? minhas prateleiras contam cada uma delas. meus diários também.

desta vez, um marca página põe ponto final numa trama tão breve quanto as citações que costumam figurar neste adereço livresco. na mais sutil das notas de rodapé, entretanto, leio um trecho dizer quase que sussurrando que este ponto final poderia muito bem ser um ponto e vírgula. um hiato tão espaçado quanto paciente. infelizmente não caibo em nenhum dos dois. a mim, não me parece suficiente. eu me basto.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

conhece-te a ti mesmo

escrever para esquecer, para abandonar os pensamentos pesos pesados que ocupam cada sinapse e consomem a maior parte da energia de que disponho diariamente. hoje me senti exaurido, deprimido e angustiado depois de uma tarde inteira refletindo se deveria ou não mandar uma última mensagem a ela. aconselhado pela colega de trabalho, mandei a mensagem "indiferente"a fim de causar um desconforto do outro lado. minha intenção, no entanto, era apenas reaver um objeto que para muitos é insignificante, mas que carrega dois anos de lembranças excelentes de uma viagem ao lado dos meus pais. minha mente tem mistérios que jamais decifrarei.
por fim, o tiro saiu pela culatra. o desconforto quem encarou fui eu, o sentimento ruim veio para mim. afinal, fiz algo que supostamente pertence ao script das relações entre as pessoas, mas que, para mim, não faz o menor sentido, já que é um gesto vazio de sentido e verdade. obviamente eu iria sofrer ao final.
fui ignorado, como merecido, e agora fico na incerteza de ter de volta o que queria.

passado o expediente, abandonei o trabalho com os olhos marejados e o pulmão quente e ácido, um velho sentimento de dor que antecede as lágrimas. questionava-me se, de fato, havia algum sentido nas minhas atitudes ou nas escolhas que venho fazendo. ao que me deparo, no mezanino do prédio uma criança brinca inconsequentemente frente a um parapeito distante pelo menos 4 metros do chão. no menor gesto sinalizando a iminência da queda eu senti todos os músculos do meu corpo se prepararem para disparar na direção do local onde aquela criança poderia cair. por fim, ela não despencou. mas soltou em minhas mãos uma lição importante para as minhas elucubrações: talvez eu não despreze a vida tanto assim. num gesto instintivo eu zelei pela vida de um menino que eu nem conheço. talvez eu tenha permitido, por tempo demais, que minha mente opere mecanismos de auto-flagelação, auto-depreciação e, assim, despreze, na verdade, a minha própria vida. ainda sou um ser humano normal, mas perdi o controle dos meus pensamentos. ocupo-me com o trabalho e com o que acredito serem minhas amizades, mas ainda me sinto vazio. é um sentimento desgraçado de ser sentido às vésperas do natal.

decidi-me por passar o reveillón no templo budista pela terceira vez em 4 anos. desta, não vou convidar qualquer amigo, apesar de sentir que vou acabar encontrando alguém na cerimônia. preciso meditar, concentrar-me em mim mesmo. ensimesmar-me. não de forma introspectiva e auto-destrutiva, senão de forma a conhecer-me na essência e valorizar isto que eu tenho antes de abandonar este plano. a vida é muito curta e tudo passa muito rapidamente. live and let die.

preciso aprender a gostar de mim antes de tudo. antes de qualquer outra pessoa ou nova paixão. eu preciso aprender a gostar de mim.

domingo, 17 de dezembro de 2017

L,

todos os meus amigos – ou pelo menos a maioria daqueles a quem contei sobre você – me deram o mesmo conselho. Mas temo que vou desconsiderar e te escrevo essa carta. não espero que ela tenha qualquer influência sobre você, mas acredito que ela surte efeito ainda maior dentro de mim. faço isso por mim única e exclusivamente, ainda que ela esteja endereçada a você.

quero tirar um peso das minhas costas semelhante àquele carregado por atlas. engraçado é que em ambas histórias há um mínimo de paralelo com a realidade dos fatos. esse peso quem colocou nas minhas costas fui eu. é o peso de todo o afeto retido, guardado e negado que eu guardei para você sem saber que, no fim das contas, você não o queria. e como todo fardo, tornou-se mais pesado conforme o tempo e o sentido de tudo passou. hoje preciso me livrar dele e é por isso que escrevo.

como em todas as outras vezes em que me aventurei com paixões inesperadas, me joguei de cabeça sem saber o que viria depois dali. mas o que acabei vendo foi uma imagem refletida e distorcida de mim mesmo, as minhas expectativas que reluziam sobre um espelho d'água tão profundo quanto aquilo que construímos em tão pouco tempo. porém não se engane. esse mergulho foi suficiente para eu me afogar nas projeções que criei do que teria com você, do que achei que tínhamos. mais uma vez falhei comigo mesmo na promessa de ser mais comedido, seguro e calmo. mais uma vez me deixei levar por uma imagem irreal de um relacionamento ou seja lá o que havia entre nós.

emprego a primeira pessoa do plural por incerteza se ainda terei de volta aquele marca páginas que lhe disse me ser bastante especial. penso em te pedir que deixe na portaria do seu novo prédio, o qual tenho certeza que jamais conhecerei. mas nem sei se você já se mudou, se vai se mudar ou seja lá o que planeja para os próximos meses. engraçado também empregar o plural para o tempo, tão singular e simples para o um mês de contato que tive com você. (já começo a me despedir também da palavra "nós"). quanto ao livro, pode ficar com ele. apesar de não tê-lo terminado, acredito que li o bastante para saber que thoreau há de te falar algo interessante. não tenho qualquer pretensão de ser marcante com um ato final, mas senti do fundo do meu coração – que tanto sente – que deveria dá-lo a você. afinal, estamos próximos do natal e não quero começar um novo ano com pendências e/ou situações mal resolvidas.

eu sei que essas palavras jamais chegarão aos seus olhos ou sequer terei a oportunidade de proferi-las aos seus ouvidos, mas espero que você saiba que, como todas as outras, eu te quis muito bem. quis te fazer bem e quis ser melhor para você. mas já passou da hora de eu ser melhor para mim, de querer o meu bem e querer me fazer bem. espero que estas palavras me encontrem em situação mais agradável no futuro . e aguardo pelo dia em que esse nó na garganta ou esse calor que eu sinto toda vez que me imaginei com você cessem assim como o que tive contigo: rápida e despretensiosamente.

adeus

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

verborragia intermitente

eu me sentei à mesa, diante de uma das mulheres mais bonitas que conheci. o encontro seguia em uma sequência de monólogos intercalados, porém nem um pouco monótonos. ambos alternávamos histórias sobre cada um de nós, eventualmente finalizando com um "eu estou com um pouco de sono, não me leve a mal se ficar meio quietinha" ou "falei demais sobre mim, né? não sou tão egóico, juro".
as intermitências ocorriam de uma forma leve e respeitosa, pouco semelhante com a experiência que ambos tiveram menos de 24 horas antes. e que experiência.
a escolha do local, o encontro já no dia seguinte, tudo ocorrera da forma menos arquitetada possível. e, talvez, essa espontaneidade me assustasse, fazendo-me olhar todo o transcorrer dos fatos com a maior desconfiança possível. apesar disso, não me senti pessimista ou sequer derrotista. por vezes erguia a cabeça e endireitava a coluna, sempre lembrando que mesmo em frente a uma mulher incrivelmente humilde, eu não poderia me curvar por desleixo ou abnegação. ela ainda não tinha a aura mística que toda mulher apaixonante tem e diante da qual eu me rebaixo instintivamente...
talvez isso seja um bom sinal. talvez eu esteja encarando esta mulher como ela é.
por inúmeras vezes consegui fazê-la de forma transparente e honesta. uma janela para a alma se abria e eu me sentia convidado a entrar. mas não posso fazê-lo senão pela porta principal. pouco a pouco verei estas janelas se abrirem e, quem sabe, teremos tempo para passar pela entrada a convite dela.
a ver

terça-feira, 15 de novembro de 2016

I ought to start walking on my own shoes

It's funny to have that on mind when I'm 27 and still living at my parents' house. I mean, if it wasn't this particular situation, the sentence that entitles this very post would make no sense, right? The point is that I think I finally achieved a state of mind – if it'll last I can't tell you in advance – that pushes me forward, puts me moving out of a condition of inertia inside my comfort zone.
I just got home from cinema. Some 20 minutes back I was almost finished watching Indignation, a movie based in a homonym Philip Roth's book (is this guy a best seller out there? I honestly have no idea).
At first, when I decided to watch it I thought it would portrait a youngster life surrounded by dilemmas in adult life. Woah, maybe I would have some identification with it, right? Precisely.
It was a pleasant experience, but the acting were poor, although the screenplay was good enough to get an A in a Creative Writing class. I just figured that out on the last scene.

But, back to my existencial elucubrations, I found it a pleasant experience once I had it minutes before leaving work in the middle of a national holiday. Perks of working with journalism.
I went there by myself, choose the movie alone and enjoyed a meal with no companion. And this is well tweet-fitting definition of my social life nowadays. I can't see any positive aspect on it, although I have been comfortable with that. And, again, it's no good to stay in the comfort zone. I need some ground shaking experience or, at least, an impulse to start acting differently in my life. I only realized that when I noticed I was driving a car that does not belon to me; at the moment I check the hours in a clock that doesn't covers only my wrists; and, finally, when I rushed out of the movie session with some comfy shows sized to some other feet but mine. So, yeah, I ought to star walking on my own shoes.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

dizem que os problemas daquela família se resumiam a testosterona, estrogênio e grana. tem um autor – não vou googlar o nome porque cansei de ser pedante – que já dizia, né, que tudo é sobre sexo exceto o próprio sexo, porque este se resume a poder.
a mãe e o pai há muito já não sabiam o que é sentir as bochechas queimarem na menor demonstração pública de afeto. um casal que dorme na mesma cama, mas mirando direções opostas não pode esperar que os filhos encontrem um norte sozinhos. e essa falta de expectativa corroía o interior dos herdeiros.
- bom dia.
- ... bom dia.
 e assim os dias começavam regados a café queimado, esquecido no fogão por alguns minutos a mais que o necessário. o filho desistira da doçura e passou a sorver o líquido como vinha do preparo. a esperança era tragar algo mais amargo do que já havia dentro de si. mas essa tarefa nunca seria completa.

- onde você pensa que vai? tá achando que é dono do seu próprio nariz?
- mais um motivo pra eu partir. não tenho nada e nada vai me prender aqui.

ora eram os hormônios que faltavam, ora o dinheiro. alguns ali pareciam, caprichosamente, combinar as duas precariedades e assim tentar fazer com que os outros convivas também ficassem. uma forma de impor a inércia em que vivia aos corpos que lhe cercam.

coragem nunca foi uma herança genética. pelo contrário. naquele lar, os familiares se uniam pela fragilidade, pelas vicissitudes que, muitas vezes, não desciam, mas pareciam se prender no meio da garganta e o asfixiado repetia como um mantra: tá tudo bem, não tem nada de errado.

e engolir aquilo era difícil. expelir, então, nem pensar. a solução econtrada era conviver com aquele objeto estranho encalacrado e fingir que era normal.


domingo, 3 de abril de 2016

Love will tear us apart

Excerpt from sometime in 2012

"There he stands in front of her.
Around them, enormous crowds.
Between them, an endless wall.
Two people divided by fear
of a frontier as high as clouds

They look towards each other
but see no difference at all.
Why does a barrier have to exist
and dissolve sameness
into a sea of mist?

With clear vision they could see
what the wall was supposed to be.
Steel, concrete and coldness would succumb
to become the mirror
that there should exist."

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

11.6.14
0h30

prolongo demais
não sei fazer HQ
nem mesmo haicais
Disse-me que me amaria com todas as letras,
todas as vinte e seis
Quero ver amor assim permanecer verdadeiro
se for amado em chinês

domingo, 17 de agosto de 2014

já não me lembro sobre o que queria escrever, mas sei que o simples fato de começar a escrever já me fará melhor ao cabo deste ato. era algo que minha irmã frequentemente fala, com muita razão, sobre quando um indivíduo se define a partir das opiniões que ouve e dos apontamentos que outros fazem. o indivíduo passa a se comportar então como uma esponja que tudo absorve e retém e se torna pesado demais, comportando algo que não deveria. muitas vezes me pego pensando nessa imagem e me imagino nessas circunstâncias, ou quando me deixo impressionar por diagnósticos médicos específicos (e. g. a recente descoberta do agravamento do meu desvio de septo nasal) e como relaciono isto com circunstâncias aleatórias (e. g. indisposição para pedalar – provavelmente causada por sedentarismo e a seca atual do centro-oeste) fazendo ambas coisas terem relação para, por fim, eu achar que estou doente ou vou ficar mal. esta paranoia e a "síndrome do impostor" – além dessa constante necessidade de achar que eu sofro de algum mal – certamente têm me tolhido energias e tempo que poderiam ser mais bem empregados nesta vida. esta mesma "vida que é um sopro" (O.N.)  – e que, sim, pode acabar a qualquer instante, mas que não devemos pensar na possibilidade do fim dela a todo instante. acho que me falta realmente me confortar com a noção da finitude da vida e enfim aproveitar um dia após o outro. "Seize the day".

terça-feira, 6 de maio de 2014

tudo passa


mas você fala as coisas? perguntou-me a mina que pouco antes questionou-me se eu não vivia em uma realidade paralela. pensar que decerto a segunda pergunta feita por ela é uma questão chave sobre minha relação com os mais próximos. ela mesmo nunca esteve próxima de mim, nunca me foi íntima apesar de já ter se deitado ao meu lado. mas a pressão interna que existe por não achar que vão me acompanhar no raciocínio ou na vontade de solucionar um problema são fatores que tapam minha cabeça com uma mão, assim como os irmãos mais velhos fazem com os caçulas para deixar estes irritados diante de sua impotência frente alguém maior. choquei o carro de minha família contra o fiesta de um senhor de idade. nada sério aconteceu, já que estávamos contornando um balão congestionado e a baixa velocidade. no entanto o senhor insistiu que precisaria de meus contatos e que eu sugerisse uma oficina para avaliarmos o custo do desnecessário reparo. como sou traumatizado com acidentes automobilísticos por conta de um grande acidente em que me envolvi junto com meu pai uns três anos atrás, quaisquer circunstâncias que anunciem a iminência do choque ou mesmo um choque estúpido como o de hoje já são suficientes para me fazer tremer as mãos, palpitar o coração e recair o maior dos problemas que enfrento desde sempre: a culpa. voltei para casa com uma sensação de culpa que me guiava a pensamentos como "minha mãe vai surtar" mesmo sendo um estrago ínfimo (apesar de ter sido um choque, apenas houve dois arranhões que, juntos, têm o tamanho de uma tampa de caneta bic.
não me sinto parte de nenhum grupo. engraçada aquela frase de groucho marx que diz "eu não faria parte de nenhum grupo que me aceitasse como membro", mas é bem como me sinto. tragicomicamente solitário por conta própria, fazendo graça da própria (falta de) sorte.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

vida leve, vida breve
quem mira pouco, pouco deve
revira, volta, pensa e escreve

mergulhos

Hoje mergulhei no mar da Praia do Futuro com meu sobrinho Túlio nos braços. Alguns minutos antes o vi, da cadeira na areia, caminhar lentamente rumo ao mar sozinho. Essa imagem me trouxe à lembrança diversas tomadas que meu pai fez durante meus primeiros anos de vida em algumas praias desse Nordeste que há tantos anos frequente, mas ainda tão pouco conheço. Entrar no mar com ele nos braços foi uma das pequenas epifanias de hoje. Senti que a segurança dele era minha responsabilidade; a alegria dele, minha meta; a minha felicidade, uma surpresa. Em um determinado momento até o chamei de filho. Ato falho. Creio que todas as vezes que ouvi comentários a respeito de nossa semelhança física - e muitas vezes temperamental - aninharam-se em uma única palavra. São momentos como este que me mostram a responsabilidade que nós seres humanos devemos ter uma com o outro. No man is an island, right? Túlio me lembra o quanto preciso amadurecer e ser forte para que ele, bem como cada uma das pessoas que amo, cresça em plenas condições. Não sou o pai dele, naturalmente eu sei disso, mas a cada dia observo o respeito que ele tem comigo e ao contrário de meu modus operandi eu não retruco com modéstia. E é essa mesma modéstia que tem me tolhido diversas oportunidades na vida, pois ela se mascara como tal, mas age como insegurança e auto-comiseração. Malditos sentimentos, puramente falta de auto-respeito.
Mais tarde no dia me peguei a conversar com um primo de segundo grau - destes que são 30 anos mais velhos que eu, particularidades da minha família - que é técnico em eletrônica sobre a dificuldade que tive para encontrar baterias para o fotômetro da Yashica TL-Electro que meu pai me deu na década de 1990 e para a qual já não há mais baterias disponíveis no mercado. Comentei que eu conseguira as duas baterias LR52 na Santa Ifigênia (ou na Teodoro Sampaio, já não me lembro mais), em São Paulo. E ele, curioso, me perguntou se eu viajava com frequência para SP. Pude ver na pergunta dele concentrados um pouco de surpresa e um tanto de desejo de estar no meu lugar. Ao que respondi com a negativa ele apenas me deu a impressão de se desfazer do primeiro sentimento. Um dos crânios da família, meu primo - ao que se conta no folclore familiar - teve bastantes aprovações em universidades federais durante sua juventude, em engenharia elétrica e matemática. No entanto nunca se formou em nenhum curso superior. Hoje vive sob o assombro do recente falecimento do pai e o receio causado pelo avanço da senilidade da mãe, recém-viúva já nos 80 e tantos anos. Coloquei-me no lugar dele e pude enxergar o quanto as dificuldades que ele enfrenta são mais profundas que as minhas.
Vivo constantemente me pondo no lugar dos outros/das outras. Mas acho que já me questionei demais para não saber qual é o meu lugar e qual é minha missão. Essa viagem (para dentro) tem me feito bem por me desencantar de um universo e me mostrar qual é o meu mundo.