"A incerteza. A dúvida. É aquilo que a chuva não conseguiu lavar e meus olhos, ainda embaçados, tentam precisar. Mas Capitu não é fictícia. Vive no meu dia a dia. Vive me pondo à beira do parapeito. Melhor, ela é o além-parapeito que me dá vertigem. A vontade suicida e descomedida de me jogar para gozar do breve da imponderabilidade. A leveza."
E os passantes olham estupefatos o desvairado a se pôr mais uma vez à queda. Já nem o aconselham mais. Nem mesmo o advertem do que vem depois. Ele é livre para se jogar. É livre para se sentir leve. Os passantes não compreendem as razões dele, embora nem mesmo ele saiba se elas existem.
Eram ele e a distância. Só havia sintonia entre esses dois, pois Capitolina não estava na mesma frequência que ele. E nunca esteve. Por um momento ele cerrou os olhos e imaginou-se de mão dada à dela durante a queda. E viu que não havia mais harmonia. Quis desistir do salto, mas sabia que o chão o atraía de uma forma impactante que seus pés juntos nunca o proporcionariam. Ele queria a instabilidade, não a segurança na constância.
Já se vendo posto à entrega, cabeça a prumo, corpo inclinado e pés envergados, olhos brilhantes e mente imaginativa... Caiu.
Visão embaçada, razão extinta, olhos abertos e mãos nuas encontraram solitariamente o concreto quente e rígido.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Feito no beco.
estudar pra trabalhar, trabalhar pra acumular, acumular pra sobejar, sobejar pra ostentar, ostentar pra vangloriar-se, vangloriar-se e procriar, procriar e perpetuar, perpetuar e legar, depois a alguém herdar e dessa vida passar.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
O Capitão de Köpenik (e algo mais)
O filme de Helmut Käutner começou muito truncado pela simultaneidade de histórias se desenrolando e ainda havia minha complicação auditiva para aceitar o Alemão cobrindo as legendas. Lucas (o Urso, para os da FAC) concordou comigo nisso. O protagonista Wilhelm é uma figura caricata e, na prisão, lembra um monomaníaco. Fora dela um obstinado. As risadas começam a aparecer depois da compra do uniforme, objeto que marca a transição cômica no filme. Pois bem. Muitos simbolismos e frases de efeito que se justificam ao longo do filme e uma conseguiu fixar em minha mente, embora não integralmente: "você é como as pessoas te veem". Algo assim. E ela se aplica a Wilhelm e serve de pano de fundo pras ações dele.
E é a partir dessa frase que penso em algo que me incomoda. A mania que temos de julgar a parte pelo todo. Considerarmos um ato pontual, isolado às vezes, por um comportamento constante. Como conversei há pouco com o amigo Caio César e me usando das palavras de Eduardo Galeano, "não sei ser otimista full-time". E Acredito que isso se aplica a muitas outras áreas e virtudes do ser humano, seja se comportando dentro de um grupo, uma sociedade, ou na intimidade. Somos uma miscelânea de imagens que não devem ser consideradas estáticas, engessadas. Tenho princípios e sentimentos e hei de segui-los enquanto me houver razão. E por paradoxos assim que somos compostos, muitas vezes não simples e facilmetne explicáveis em alguns caracteres de um blog.
Estou sendo prolixo, sei. Acredito que podemos e devemos ser adequados às situações a que somos expostos e nos expomos...
Continuo melhor outra hora.
Por hoje, um abraço.
E é a partir dessa frase que penso em algo que me incomoda. A mania que temos de julgar a parte pelo todo. Considerarmos um ato pontual, isolado às vezes, por um comportamento constante. Como conversei há pouco com o amigo Caio César e me usando das palavras de Eduardo Galeano, "não sei ser otimista full-time". E Acredito que isso se aplica a muitas outras áreas e virtudes do ser humano, seja se comportando dentro de um grupo, uma sociedade, ou na intimidade. Somos uma miscelânea de imagens que não devem ser consideradas estáticas, engessadas. Tenho princípios e sentimentos e hei de segui-los enquanto me houver razão. E por paradoxos assim que somos compostos, muitas vezes não simples e facilmetne explicáveis em alguns caracteres de um blog.
Estou sendo prolixo, sei. Acredito que podemos e devemos ser adequados às situações a que somos expostos e nos expomos...
Continuo melhor outra hora.
Por hoje, um abraço.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Banal
Não vou fazer disso um diário de verdade, mas na falta do ímpeto de escrever algo (quase) trabalhado vou me prender ao quotidiano. Já que o dia foi bacana por comemorar o aniversário de 40 anos de um amigo ao lado de outros tantos amigos variados. Encarei as últimas 14h com olhar banal, nada tão analítico e observador, já que não havia tamanha necessidade. Apenas preciso lembrar de me permitir um pouco mais desfrutar de pequenas atitudes que fazem felizes os desamarrados à vergonha. Férias tão longas que se tornam complicadas de administrar, embora os últimos dias ao lado dos grandes amigos têm sido ótimos. E tenho de terminar Crime e Castigo logo para poder ler os outros mais de 9 livros. Se você, escasso leitor, tiver alguma recomendação literária, cinematográfica, de lazer ou o que seja, faça a caridade de deixá-la em comentário.
Obrigado.
Obrigado.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Devaneios2
"Vitilantiluli pirra pirra cautivi assobiava o Sanhaço. E, pesarosa, outra ave cearense entoava: um mundo cheio de altos e baixos; onde caiu Pedro Segundo, cairá João Bastos. O dia está ótimo para ressucitar memórias que não me pertenceram, mas serão minhas e me tocarão de nostalgia por algumas horas.
E saber que meu tio-bisavô deixou o Ceará em 1904 para se tornar um dos maiores produtores e exportadores de borracha dos seringais amazonenses (é o que se conta) me encheu de um orgulho estranho, por não ser exatamente meu. Porém, como sempre, as glórias não vem sozinhas. Adoeceu e por falta de conhecimento dos vizinhos era tido como doente contagioso. Seus pertences, suas ações quotidianas tinham de ser somente dele. Chegando ao opróbio de depois de seu falecimento todos seus pertences e mobílias, objetos com bastante história, serem jogadas num despenhadeiro por medo da contaminação. Objetos que não poderiam ser divididos pelo receio dos outros em se contaminarem. Para tanto, J. Bastos. viajou à Suíça à procura de tratamento, o qual não havia pelas terras tupiniquins. Viajou com dois filhos e deixou por aqui sua esposa e seu legado. E para seu infortúnio descobriu que sua doença (cujo nome não me recordo) já estava em estágio avançado e que não haveria esperança de melhora, tendo como escape apenas aproveitar o tempo que lhe sobrava. Como forma de aproveitá-lo quis que seus filhos também o fizessem: deixou-os lá para que estudassem.
Voltando para o Amazonas, amarga um abandono da esposa, agora ex. Voltou para sua terra natal, Santana, região próxima a Itapagé-CE para poder ter seus últimos dias sem maiores tormentas e reproduzir aquele estribilho para outros.
E eu, duas gerações depois, conto num ritmo apressado a história que ouvi por minha tia. Mas essa é só a visão do contador. A minha visão. J. Bastos quem sabe encontrou coisa mais feliz que seringal, Suíça, escritos ou Santana poderiam ter-lhe dado.
O que me encanta é mais um canto de Sanhaço."
Escrito em 21/jan na mesma ocasião do texto em frente à televisão.
E saber que meu tio-bisavô deixou o Ceará em 1904 para se tornar um dos maiores produtores e exportadores de borracha dos seringais amazonenses (é o que se conta) me encheu de um orgulho estranho, por não ser exatamente meu. Porém, como sempre, as glórias não vem sozinhas. Adoeceu e por falta de conhecimento dos vizinhos era tido como doente contagioso. Seus pertences, suas ações quotidianas tinham de ser somente dele. Chegando ao opróbio de depois de seu falecimento todos seus pertences e mobílias, objetos com bastante história, serem jogadas num despenhadeiro por medo da contaminação. Objetos que não poderiam ser divididos pelo receio dos outros em se contaminarem. Para tanto, J. Bastos. viajou à Suíça à procura de tratamento, o qual não havia pelas terras tupiniquins. Viajou com dois filhos e deixou por aqui sua esposa e seu legado. E para seu infortúnio descobriu que sua doença (cujo nome não me recordo) já estava em estágio avançado e que não haveria esperança de melhora, tendo como escape apenas aproveitar o tempo que lhe sobrava. Como forma de aproveitá-lo quis que seus filhos também o fizessem: deixou-os lá para que estudassem.
Voltando para o Amazonas, amarga um abandono da esposa, agora ex. Voltou para sua terra natal, Santana, região próxima a Itapagé-CE para poder ter seus últimos dias sem maiores tormentas e reproduzir aquele estribilho para outros.
E eu, duas gerações depois, conto num ritmo apressado a história que ouvi por minha tia. Mas essa é só a visão do contador. A minha visão. J. Bastos quem sabe encontrou coisa mais feliz que seringal, Suíça, escritos ou Santana poderiam ter-lhe dado.
O que me encanta é mais um canto de Sanhaço."
Escrito em 21/jan na mesma ocasião do texto em frente à televisão.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Devaneios
"'Tomara que chova enquanto eu estiver lá.' Pensei. E assim se fez. Não bastasse eu me sentir na mesma situação que há uns sete anos, ainda tuve de encarar novos problemas que afetaram meu sobrinho e ,diretamente, a todos os outros. A chuva não só aliviou o calor infernal que assolava a cidade naquela tarde, mas melhorou (um pouco) minha estada. Agora, rever as mesmas faltas de educação dos visitantes, as mesmas saídas para o Centro barulhento e as mais frequentes feiuras (e viva a Reforma Ortográfica!).
Fui ao clube com a família e me incumbi de vigiar nossos pertences enquanto eles se banhavam e aproveitavam o pouco do sol. Durante a ausência deles, lia Crime e Castigo e, simultaneamente, o céu se fechava e ventava fortemente. Com isso, aquela horda desesperada passava à minha frente procurando um teto, ainda havendo mormaço. Raskólhnikov se dissimulando e aquela manada estourando. E no clube a única água que tocou meu corpo foi a da chuva. E com os ventos fortes e nuvens escuras tomando o lugar do mormaço a massa bateu em retirada pra debaixo de um local fechado. Bestializados e ofegantes. Por que em massa boa parte de nós se comporta de forma animalesca? Seja em situação de desespero em que todo mundo tenta se safar de um malgrado ou quando tomados por adrenalina ou endorfina excessivas saem batendo em garçons ou queimando índios. Nelson Rodrigues me permita o empréstimo e a adaptação, mas, sim, toda unanimidade é burra.
E, na contramão, por que quase toda individualidade é acompanhada de incompreensão? As particularidades de alguns indivíduos em excesso às vezes sufocam, mas por que existe o costume de refutá-las antes de vê-las corretamente? Eu não aguentaria viver imerso em burrice sem razão, mas me imaginar recluso entre 'quatro pensamentos' também me aflige. A exemplo de agora: estou complementando devaneios, três dias após iniciados à beira de uma piscina. E agora estou numa sala diante de um televisor emudecido enquanto seis ou sete parentes estão a cômodos de distância a contar seus casos passados. Esse tanto de pergunta é basicamente por causa disto: eu insistir na distância, em alguns momentos. Às vezes me falta um bocado de aproximação (comedida, claro). Mas não será diante de um bloco de notas ( de celulose ou de pixels, qual seja) que eu conseguirei isso..."
Texto iniciado em 18/jan à beira de uma piscina e complementado em 21/jan à frente de uma tevê.
Fui ao clube com a família e me incumbi de vigiar nossos pertences enquanto eles se banhavam e aproveitavam o pouco do sol. Durante a ausência deles, lia Crime e Castigo e, simultaneamente, o céu se fechava e ventava fortemente. Com isso, aquela horda desesperada passava à minha frente procurando um teto, ainda havendo mormaço. Raskólhnikov se dissimulando e aquela manada estourando. E no clube a única água que tocou meu corpo foi a da chuva. E com os ventos fortes e nuvens escuras tomando o lugar do mormaço a massa bateu em retirada pra debaixo de um local fechado. Bestializados e ofegantes. Por que em massa boa parte de nós se comporta de forma animalesca? Seja em situação de desespero em que todo mundo tenta se safar de um malgrado ou quando tomados por adrenalina ou endorfina excessivas saem batendo em garçons ou queimando índios. Nelson Rodrigues me permita o empréstimo e a adaptação, mas, sim, toda unanimidade é burra.
E, na contramão, por que quase toda individualidade é acompanhada de incompreensão? As particularidades de alguns indivíduos em excesso às vezes sufocam, mas por que existe o costume de refutá-las antes de vê-las corretamente? Eu não aguentaria viver imerso em burrice sem razão, mas me imaginar recluso entre 'quatro pensamentos' também me aflige. A exemplo de agora: estou complementando devaneios, três dias após iniciados à beira de uma piscina. E agora estou numa sala diante de um televisor emudecido enquanto seis ou sete parentes estão a cômodos de distância a contar seus casos passados. Esse tanto de pergunta é basicamente por causa disto: eu insistir na distância, em alguns momentos. Às vezes me falta um bocado de aproximação (comedida, claro). Mas não será diante de um bloco de notas ( de celulose ou de pixels, qual seja) que eu conseguirei isso..."
Texto iniciado em 18/jan à beira de uma piscina e complementado em 21/jan à frente de uma tevê.
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