terça-feira, 6 de maio de 2014
mas você fala as coisas? perguntou-me a mina que pouco antes questionou-me se eu não vivia em uma realidade paralela. pensar que decerto a segunda pergunta feita por ela é uma questão chave sobre minha relação com os mais próximos. ela mesmo nunca esteve próxima de mim, nunca me foi íntima apesar de já ter se deitado ao meu lado. mas a pressão interna que existe por não achar que vão me acompanhar no raciocínio ou na vontade de solucionar um problema são fatores que tapam minha cabeça com uma mão, assim como os irmãos mais velhos fazem com os caçulas para deixar estes irritados diante de sua impotência frente alguém maior. choquei o carro de minha família contra o fiesta de um senhor de idade. nada sério aconteceu, já que estávamos contornando um balão congestionado e a baixa velocidade. no entanto o senhor insistiu que precisaria de meus contatos e que eu sugerisse uma oficina para avaliarmos o custo do desnecessário reparo. como sou traumatizado com acidentes automobilísticos por conta de um grande acidente em que me envolvi junto com meu pai uns três anos atrás, quaisquer circunstâncias que anunciem a iminência do choque ou mesmo um choque estúpido como o de hoje já são suficientes para me fazer tremer as mãos, palpitar o coração e recair o maior dos problemas que enfrento desde sempre: a culpa. voltei para casa com uma sensação de culpa que me guiava a pensamentos como "minha mãe vai surtar" mesmo sendo um estrago ínfimo (apesar de ter sido um choque, apenas houve dois arranhões que, juntos, têm o tamanho de uma tampa de caneta bic.
não me sinto parte de nenhum grupo. engraçada aquela frase de groucho marx que diz "eu não faria parte de nenhum grupo que me aceitasse como membro", mas é bem como me sinto. tragicomicamente solitário por conta própria, fazendo graça da própria (falta de) sorte.
não me sinto parte de nenhum grupo. engraçada aquela frase de groucho marx que diz "eu não faria parte de nenhum grupo que me aceitasse como membro", mas é bem como me sinto. tragicomicamente solitário por conta própria, fazendo graça da própria (falta de) sorte.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
mergulhos
Hoje mergulhei no mar da Praia do Futuro com meu sobrinho Túlio nos braços. Alguns minutos antes o vi, da cadeira na areia, caminhar lentamente rumo ao mar sozinho. Essa imagem me trouxe à lembrança diversas tomadas que meu pai fez durante meus primeiros anos de vida em algumas praias desse Nordeste que há tantos anos frequente, mas ainda tão pouco conheço. Entrar no mar com ele nos braços foi uma das pequenas epifanias de hoje. Senti que a segurança dele era minha responsabilidade; a alegria dele, minha meta; a minha felicidade, uma surpresa. Em um determinado momento até o chamei de filho. Ato falho. Creio que todas as vezes que ouvi comentários a respeito de nossa semelhança física - e muitas vezes temperamental - aninharam-se em uma única palavra. São momentos como este que me mostram a responsabilidade que nós seres humanos devemos ter uma com o outro. No man is an island, right? Túlio me lembra o quanto preciso amadurecer e ser forte para que ele, bem como cada uma das pessoas que amo, cresça em plenas condições. Não sou o pai dele, naturalmente eu sei disso, mas a cada dia observo o respeito que ele tem comigo e ao contrário de meu modus operandi eu não retruco com modéstia. E é essa mesma modéstia que tem me tolhido diversas oportunidades na vida, pois ela se mascara como tal, mas age como insegurança e auto-comiseração. Malditos sentimentos, puramente falta de auto-respeito.
Mais tarde no dia me peguei a conversar com um primo de segundo grau - destes que são 30 anos mais velhos que eu, particularidades da minha família - que é técnico em eletrônica sobre a dificuldade que tive para encontrar baterias para o fotômetro da Yashica TL-Electro que meu pai me deu na década de 1990 e para a qual já não há mais baterias disponíveis no mercado. Comentei que eu conseguira as duas baterias LR52 na Santa Ifigênia (ou na Teodoro Sampaio, já não me lembro mais), em São Paulo. E ele, curioso, me perguntou se eu viajava com frequência para SP. Pude ver na pergunta dele concentrados um pouco de surpresa e um tanto de desejo de estar no meu lugar. Ao que respondi com a negativa ele apenas me deu a impressão de se desfazer do primeiro sentimento. Um dos crânios da família, meu primo - ao que se conta no folclore familiar - teve bastantes aprovações em universidades federais durante sua juventude, em engenharia elétrica e matemática. No entanto nunca se formou em nenhum curso superior. Hoje vive sob o assombro do recente falecimento do pai e o receio causado pelo avanço da senilidade da mãe, recém-viúva já nos 80 e tantos anos. Coloquei-me no lugar dele e pude enxergar o quanto as dificuldades que ele enfrenta são mais profundas que as minhas.
Vivo constantemente me pondo no lugar dos outros/das outras. Mas acho que já me questionei demais para não saber qual é o meu lugar e qual é minha missão. Essa viagem (para dentro) tem me feito bem por me desencantar de um universo e me mostrar qual é o meu mundo.
Mais tarde no dia me peguei a conversar com um primo de segundo grau - destes que são 30 anos mais velhos que eu, particularidades da minha família - que é técnico em eletrônica sobre a dificuldade que tive para encontrar baterias para o fotômetro da Yashica TL-Electro que meu pai me deu na década de 1990 e para a qual já não há mais baterias disponíveis no mercado. Comentei que eu conseguira as duas baterias LR52 na Santa Ifigênia (ou na Teodoro Sampaio, já não me lembro mais), em São Paulo. E ele, curioso, me perguntou se eu viajava com frequência para SP. Pude ver na pergunta dele concentrados um pouco de surpresa e um tanto de desejo de estar no meu lugar. Ao que respondi com a negativa ele apenas me deu a impressão de se desfazer do primeiro sentimento. Um dos crânios da família, meu primo - ao que se conta no folclore familiar - teve bastantes aprovações em universidades federais durante sua juventude, em engenharia elétrica e matemática. No entanto nunca se formou em nenhum curso superior. Hoje vive sob o assombro do recente falecimento do pai e o receio causado pelo avanço da senilidade da mãe, recém-viúva já nos 80 e tantos anos. Coloquei-me no lugar dele e pude enxergar o quanto as dificuldades que ele enfrenta são mais profundas que as minhas.
Vivo constantemente me pondo no lugar dos outros/das outras. Mas acho que já me questionei demais para não saber qual é o meu lugar e qual é minha missão. Essa viagem (para dentro) tem me feito bem por me desencantar de um universo e me mostrar qual é o meu mundo.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
good men are not good to do bad
That my grandfather told my father, and so he gave that speech on morals, doing what is good apart what others do. Although, I don't fill fulfilled by only doing what I understand as good.
There's a kind of good people that think that the absence of evil means doing good. Well, that would be totally acceptable if we lived in a world of binary conditions. But, considering this world as a diverse, plural, non-linear nor predictable kind of world, not doing something doesn't mean you are doing its opposite.
I feel like I have been having an experience of not doing what I think is right, but still not doing what I think is wrong. I don't even have it clarified like that in my mind actually. Once I entered college I saw a writing on a wall: "take a walk on the wild side". Five years ago I was sneaking the wild side through some wholes on a high fence of which I was standing behind. Nowadays I reckon that I found a way through, took a walk on its wild side, found it meh and now I am trying to find a way back. But, is there really a way back? Was there actually some kind of fence dividing opposite sides or was it only my (once narrow) mind playing tricks on me and only showing what I could see with low effort.
I want to seize the beautiful day ahead, but I can't find a way through these fields.
There's a kind of good people that think that the absence of evil means doing good. Well, that would be totally acceptable if we lived in a world of binary conditions. But, considering this world as a diverse, plural, non-linear nor predictable kind of world, not doing something doesn't mean you are doing its opposite.
I feel like I have been having an experience of not doing what I think is right, but still not doing what I think is wrong. I don't even have it clarified like that in my mind actually. Once I entered college I saw a writing on a wall: "take a walk on the wild side". Five years ago I was sneaking the wild side through some wholes on a high fence of which I was standing behind. Nowadays I reckon that I found a way through, took a walk on its wild side, found it meh and now I am trying to find a way back. But, is there really a way back? Was there actually some kind of fence dividing opposite sides or was it only my (once narrow) mind playing tricks on me and only showing what I could see with low effort.
I want to seize the beautiful day ahead, but I can't find a way through these fields.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
cama de casal
Cama de casal:
aumento da dioturna sensação
[ de constante solidão.
Vou dormir na diagonal.
Cama de casal!
mas eu sou solteiro!
a solução para este mal
é abraçar o travesseiro.
aumento da dioturna sensação
[ de constante solidão.
Vou dormir na diagonal.
Cama de casal!
mas eu sou solteiro!
a solução para este mal
é abraçar o travesseiro.
segunda-feira, 22 de abril de 2013
a língua do homem
Hoje, no ônibus para a Ibiti, como de praxe, fui lendo Liberdade, do Johnatan Franzen. O romance mostra as vidas de uma família, os Berglund, em diversos âmbitos e (principalmente) as vicissitudes particulares de cada membro. O pai da família é um ambientalista e feminista convicto e seu retrato no livro é sempre decorado com a afã de um ativista que não quis se resignar, como dizem ser o destino de (quase) todo adulto. Acho o livro interessante por retratar os membros dessa família um a um, sem concentrar na figura de somente uma personagem e endeusá-la.
Esse livro me pôs a pensar, durante o trajeto que leva 40 minutos, no que é patriarcado. E refleti sempre observando aquilo em que tenho experiência, ou seja, minha família (pai, mãe, irmã, sobrinho) e meus parentes. Tivemos visita no final de semana, um primo e sua esposa que vieram do Ceará para conhecer Brasília. Ao retornar de sua breve estada aqui, enviaram uma mensagem de gratidão pelo Facebook somente no mural do perfil de meu pai, sem citar nenhuma outra pessoa. Bem, durante os últimos dias, todos e todas dedicamos tempo ao casal. Todos e todas realizamos atividades junto a ele e ela. E, por fim, a gratidão vem direcionada exclusivamente ao "pai da família". Apesar de raso, este exemplo é uma forma de eu confirmar a minha percepção das sutilezas do machismo cristalizado em nosso dia a dia. Durante as relações do dia a dia temos um modus operandi prático, para facilitar as interações com outras pessoas e nos comunicarmos. Porém com um olhar apurado e uma postura crítica diante destas pequenas ações, é possível enxergar o quanto somos submetidos e submetidas a esses valores centrados na figura do patriarca, do homem. Os anúncios de empresas que oferecem produtos de consumo de ambos os gêneros quase sempre enaltecem o interlocutor com adjetivos terminados com desinência masculina. Com um pouco de prática da alteridade, de tentar se colocar no lugar da outra, pode-se enxergar o quanto falamos a língua do homem.
Ainda ontem, algumas horas depois, estive presente em um culto de uma igreja presbiteriana chinesa, parte da pesquisa para meu Projeto Final. A palavra de Deus era ministrada por um jovem pastor brasileiro, e traduzida simultaneamente por uma senhora chinesa, a um público de 25 pessoas, de maioria chinesa. O pastor fazia referências ao sacrifício feito por Deus (João 3:16) e por vezes empossava-se da voz de Deus, interpretando e gesticulando como o pai de Cristo. Enfim, já fiz referências demais ao quanto o próprio Cristianismo está centrado na figura masculina, principalmente as vertentes protestantes que não consideram santa, nem dispensam idolatria a Maria. Mas o que achei curioso foi o fato de o pastor interpretar a voz de Deus direcionando-se sempre aos "seus filhos" ou simplesmente apontando um "venha a mim, filho". Em nenhum momento este filho era Cristo, mas sim a igreja ali presente, de maioria feminina. Não é de se surpreender o fato de que o mundo é machista, mesmo que simbolica ou sutilmente, mas tudo isso me intriga demais.
Enfim, vejo que além de uma postura crítica, além de enxergar todas essas incoerências, enxergo a necessidade de afirmar ações e postura feminista...melhor, despertar o respeito que há muito é relegado por meio da simples existência de instituições como o patriarcado ou sua expressão simbólica cotidiana. De um tempo para cá já não consigo suportar as piadas de cunho sexista, racista ou homofóbico que vez ou outra surgem às mesas de almoço dominicais. Se todas essas definições (sexismo, racismo, homofobia) existem para definir desrespeitos que ocorrem diariamente, não é porque exista uma postura "politicamente correta" que deva ser seguida, como ouvi num programa televisivo ontem. Mas sim porque ainda existem situações em que o respeito é desconsiderado e muitas vezes em âmbitos que a retitude deveria ser regra primeira, como o lar e a igreja.
Esse livro me pôs a pensar, durante o trajeto que leva 40 minutos, no que é patriarcado. E refleti sempre observando aquilo em que tenho experiência, ou seja, minha família (pai, mãe, irmã, sobrinho) e meus parentes. Tivemos visita no final de semana, um primo e sua esposa que vieram do Ceará para conhecer Brasília. Ao retornar de sua breve estada aqui, enviaram uma mensagem de gratidão pelo Facebook somente no mural do perfil de meu pai, sem citar nenhuma outra pessoa. Bem, durante os últimos dias, todos e todas dedicamos tempo ao casal. Todos e todas realizamos atividades junto a ele e ela. E, por fim, a gratidão vem direcionada exclusivamente ao "pai da família". Apesar de raso, este exemplo é uma forma de eu confirmar a minha percepção das sutilezas do machismo cristalizado em nosso dia a dia. Durante as relações do dia a dia temos um modus operandi prático, para facilitar as interações com outras pessoas e nos comunicarmos. Porém com um olhar apurado e uma postura crítica diante destas pequenas ações, é possível enxergar o quanto somos submetidos e submetidas a esses valores centrados na figura do patriarca, do homem. Os anúncios de empresas que oferecem produtos de consumo de ambos os gêneros quase sempre enaltecem o interlocutor com adjetivos terminados com desinência masculina. Com um pouco de prática da alteridade, de tentar se colocar no lugar da outra, pode-se enxergar o quanto falamos a língua do homem.
Ainda ontem, algumas horas depois, estive presente em um culto de uma igreja presbiteriana chinesa, parte da pesquisa para meu Projeto Final. A palavra de Deus era ministrada por um jovem pastor brasileiro, e traduzida simultaneamente por uma senhora chinesa, a um público de 25 pessoas, de maioria chinesa. O pastor fazia referências ao sacrifício feito por Deus (João 3:16) e por vezes empossava-se da voz de Deus, interpretando e gesticulando como o pai de Cristo. Enfim, já fiz referências demais ao quanto o próprio Cristianismo está centrado na figura masculina, principalmente as vertentes protestantes que não consideram santa, nem dispensam idolatria a Maria. Mas o que achei curioso foi o fato de o pastor interpretar a voz de Deus direcionando-se sempre aos "seus filhos" ou simplesmente apontando um "venha a mim, filho". Em nenhum momento este filho era Cristo, mas sim a igreja ali presente, de maioria feminina. Não é de se surpreender o fato de que o mundo é machista, mesmo que simbolica ou sutilmente, mas tudo isso me intriga demais.
Enfim, vejo que além de uma postura crítica, além de enxergar todas essas incoerências, enxergo a necessidade de afirmar ações e postura feminista...melhor, despertar o respeito que há muito é relegado por meio da simples existência de instituições como o patriarcado ou sua expressão simbólica cotidiana. De um tempo para cá já não consigo suportar as piadas de cunho sexista, racista ou homofóbico que vez ou outra surgem às mesas de almoço dominicais. Se todas essas definições (sexismo, racismo, homofobia) existem para definir desrespeitos que ocorrem diariamente, não é porque exista uma postura "politicamente correta" que deva ser seguida, como ouvi num programa televisivo ontem. Mas sim porque ainda existem situações em que o respeito é desconsiderado e muitas vezes em âmbitos que a retitude deveria ser regra primeira, como o lar e a igreja.
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